As duas grandes muralhas da China

As duas grandes muralhas da China

quinta-feira, 7. Julho 2016
Author: 

Shoufeng Hsu

Visitei recentemente Pequim, Xangai, Cantão e Chengdu. A magnificência da Grande Muralha era ainda mais notável sob a tempestade fria. De volta ao hotel, finalmente consegui escalar a grande muralha de segurança, o firewall, para acessar minhas contas de Facebook e gmail. Achei engraçado o contraste entre essas duas muralhas: uma construída para impedir a invasão dos Mogóis e a outra para impedir a saída dos usuários Chineses.

Ambas as muralhas foram construídas por medo e desconfiança. E ambas falharam. Um exército de software foi inventado para penetrar o Grande Firewall. Nossa guia, uma jovem de vinte e poucos anos, contou que sua geração só lê as notícias na Web e não confia nas notícias oficiais patrocinadas pelo governo. O Grande Firewal aparenta ser um monumento cibernético à desconfiança das pessoas no governo.

O Movimento Quatro de Maio, iniciado em 1914, instava que a China adotasse a ciência e a democracia ocidentais. Desde então, o caminho do desenvolvimento chinês vem sendo definido pela noção de que seu futuro depende de livrar-se das tradições antigas. Há cinquenta anos, em 1966, Mao Tsé-Tung lançou a Revolução Cultural, que promovia a luta de classes desenfreada, o que colocou as pessoas umas contra as outras e destruiu a confiança, base do tecido social. Muitos chineses perderam sua fé no governo.

Políticas públicas mal elaboradas e despidas de confiança em valores humanos tendem a falhar. Frequentemente apelam para o lado sombrio da natureza humana e invocam pensamentos e comportamentos egoístas. As medidas violentas e extremas da Revolução Cultural são um sério aviso.

Ao longo das duas últimas décadas, a China ascendeu ao patamar de potência econômica global, e agora o governo busca torná-la uma sociedade civilizada moderna. Canteiros de obras nas maiores cidades chinesas têm quadros de avisos que promovem os “16 valores principais da sociedade socialista”, incluindo democracia e civilidade. “Seja um turista civilizado”, diz um cartaz. O conteúdo parece nobre, mas a questão é como realizá-lo em um nível pessoal.

Em Junho, minha família viajou de férias a Chengdu, onde um amigo muçulmano, morador local, nos levou a um museu a 200 quilômetros da cidade. Era Ramadã e, apesar de estar viajando, ele decidiu honrar sua fé e manter seu jejum. Ele também detestava o fato de que, após as orações de sexta-feira na mesquita, ele era o único a parar seu carro na faixa de pedestre, enquanto todos os outros motoristas ultrapassavam o sinal vermelho, olhando para ele em reprovação.

“Meu país é como eu sou.” É nos pensamentos e comportamentos de indivíduos como esse amigo que vejo esperança para o futuro da China. Por outro lado, “nada é possível sem as pessoas; nada dura sem as instituições.” Mudanças tanto nas pessoas quanto nas instituições são necessárias para que a China se torne uma grande civilização que mereça a confiança e o respeito de seu próprio povo e de outros países. Se considerarmos a história, seria bom para a China abandonar seu esforço fútil de manter o Grande Firewall e investir mais em construir pontes de confiança, a começar por seu próprio povo e suas próprias instituições.

Shoufeng Hsu é de Taiwan, ligado ao IofC há 22 anos, trabalhando em especial em várias iniciativas relacionadas ao desenvolvimento de jovens em Taiwan e a região da Ásia-Pacífico. Ele também participa do Conselho Internacional do IoFc, é membro do conselho do IofC em Taiwan e da Equipe de Coordenação da Ásia-Pacífico, que atende a rede do IofC na região. Shoufeng acredita que IofC está na posição singular de poder lidar com questões morais e espirituais, com uma mensagem universal que toca pessoas de todas as fés ou de nenhuma fé. Como intérprete profissional que trabalha com IofC de maneira voluntária, sente-se chamado a ser uma ponte de comunicação entre culturas e geraões. Shoufeng é casado com Ouyang Huifang, que trabalha com IdeM há mais de 20 anos e é a atual Secretária-geral do IofC Taiwan.

NOTA: Indivíduos de muitas culturas, nacionalidades, religiões e crenças estão ativamente envolvidos com Iniciativas de Mudança. Esses comentários representam as opiniões do escritor e não necessariamente os de Iniciativas de Mudança como um todo.

Tradução por Raquel Zanol